Carta de um insone

Para Juliana, Luciana e
João Ricardo
Meu velho Marco, meu morto,

Ainda não me conformo com a tua morte! Não, eu nunca esperei que isso pudesse acontecer contigo...não parece verdade que você morreu, tão jovem com os seus 22 anos, nem acabaste a facul ainda e faltava tão pouco...

Escrevo-te nessa noite fria porque não consigo conciliar o sono diante de tantos quadros que se passam em minha mente. Lembro-me quando nos conhecemos, quando éramos crianças, do tempo em que brincávamos juntos, estudávamos juntos, enfim, uma amizade de longos anos, e que simplesmente eu acabei com ela.

Meu velho, como posso esquecer das nossas conversas, já na adolescência, sobre os diversos assuntos: política, futebol até, que na adolescência, falávamos daquela vizinha gata da rua do lado, e filosofávamos sobre nossas leituras... Kafka, Pascal, Brecht e João XXIII, aquele papa que tu tanto estimavas...realmente ele foi um excelente líder, não tenho nada que falar dele, tu já falavas tudo...

Não, meu amigo, tu não! Tu, meu amigo magricela, tão fervoroso, que tinha uma vida tão reta e correta, tu não merecias isso...Eu que sou o anarquista, pagão, pseudo-intelectualóide e porra-loca, eu que sou o errado e estou vivo, não me conformo como fui idiota. Confesso que tivemos muitas discussões e caras feias, mas tudo isso só fez com que eu te estimasse mais, caramba! Não consigo entender...

Tua doença, tudo tão rápido! Porque fui te desprezar, meu amigo. Não, tu não eras o fanático religioso alienado que eu pensava...e eu me afastei tanto de ti, fui tão hostil contigo e tão ausente na tua doença...no desenvolvimento do teu câncer, o que aconteceu comigo que estive tão cego? Como pude não me envolver nos teus problemas...O alienado era eu, o único alienado fui eu.

Agora tu dormes, meu velho, dormes o sono dos justos. Eu, agora, nem mais durmo...

Seu, se você assim ainda considerar, amigo,

Aurélio.

P.S.: Tua namorada ficou inconsolável no teu enterro, acho que ela realmente te amava.
P.S.S.: Penso sempre naquela frase, do Norman Douglas, a última frase que me disseste: " Para achar um amigo é preciso fechar um olho; para conservá-lo é preciso fechar os dois."
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(Pessoas, pra esclarecimentos...esse é um conto fictício, certo? AbRrá)

20 commenti:

Luiz Guilherme { 23 de julho de 2008 18:40 }
Pois é meu caro amigo, valorize muito mesmo seus amigos pois quando se vão não tem volta...

Se bem que dependendo da linha filosófica/religiosa que se acredita apenas há um intervalo de tempo até que se reencontrem...

Pois meus pêsames por esta perda, mas não literalmente por perder seu amigo mas por ter desfeito uma amizade bela e não ter dado tempo de reconciliar-se...

Torço por ti e espero que esteja bem...
Luifel { 23 de julho de 2008 19:03 }
Afim de esclarecimentos, isso é um conto fictício, não é baseado em fatos reais, ok?

AbRrá!
Luiz Guilherme { 23 de julho de 2008 19:13 }
Nossa eu fui tocado por ele mesmo... Então quer dizer que realmente se dedicou neste conto meu xará...

Agradeço a explicação e acompanharei mais o blog, pode apostar...
Luci Dantas { 23 de julho de 2008 23:28 }
Puxa, Luiz

Legal esse conto... espero que a nossa amizade dure por muitos e muitos anos... bj.
Leonardo Werneck { 24 de julho de 2008 11:06 }
Contista de mão cheia!

Abraços
Pedro { 24 de julho de 2008 12:02 }
É preciso saber valorizá-los antes de perdê-lo.
Janete Andrade { 24 de julho de 2008 13:47 }
fictício, mas não deixa de ser emocionante. :/
infelizmente existe pessoas assim, q só valorizam qdo perdem... :~

;*
Srta Diazepan { 24 de julho de 2008 16:46 }
podia ter falado q era fictício já no começo né... fui lendo e já pensando nas palavras de conforto que te daria!!!! Bom, pelo menos tem a parte boa : o marco não morreu, vc não está triste e eu não precisei usar palavras de consolo que no fundo nem consolam nada.

beijos
Juliana Almeida { 24 de julho de 2008 16:50 }
Nossa Lu que lindo!

Obrigada pela homenagem e que a nossa amizade ultrapasse os anos e as distâncias....

Obrigada meu amigo querido!
Mariana { 24 de julho de 2008 23:33 }
Que lindo!!!!!!!!!!!

Adorei...

Amizade é uma das melhores coisas que ja aconteceram na minha vida..

beijos
♥ღ♥ Joh ♥ღ♥ { 25 de julho de 2008 03:33 }
esse texto realmente nos faz pensar. não abandonar nossos amigos em hora alguma, muito menos nas horas de mais precisão. já passei por situação de perder um amigo bem jovem. a gente sempre acaba achando que o tempo que passamos com ele foi pouco.
belo texto e me tocou profundamente!
Camila { 25 de julho de 2008 16:18 }
Apesar de ficticio, essa situação acontece corriqueiramente no mundo!
Todos sempre tão ocupados com sua vida que esquecem das amizades!
Muito bom!
Beijo
=)
Clecia { 25 de julho de 2008 17:27 }
Nossa! Lindo conto!E eu já estava pensando que fosse uma história real.Bom,o que não deixa de serum tanto real, pois casos assim acontece a todo instante no mundo, não é mesmo? Devemos mesmo valorizar e aproveitar os momentos cm nossos amigos! Bjs e um lindo fim de semana!
carla m. { 25 de julho de 2008 21:38 }
Luifel, sempre sensível, sempre mundano.

a gente lamenta pelo que não foi, só por que lembra do que foi.

beijocas!
Vinícius Aguiar { 26 de julho de 2008 08:51 }
Fictício??
Faz tempo que não vejo nada tão realista!! É assim mesmo... acontece todos os dias, todas as noites, do nosso lado... não aprendemos a valorizar o ser humano em vida, e a sua morte geralmente trás de volta aquele afeto que por orgulho idiota deixamos de expressar enquanto aquela pessoa estava ali, do nosso lado!
Não, infelizmente essa não é uma história de ficção!
- outbreak' { 27 de julho de 2008 13:41 }
Nossa!
Cara, muito emotiva essa carta..
quase acreditei que fosse real. Acho que é isso que nos estimula a deixar de lado defeitos e brigas, elas nos afastam de quem gostamos e podem criar em nós um arrependimento eterno.

Muito bom seu blog!
adimaia1 { 27 de julho de 2008 19:54 }
valorizar as verdadeiras amizades (os amores que a gente tem) é o que realmente importa.
Aliás, meu penúltimo post piblicado no Vermelho Pitanga foi bem similar a esse aqui.

Beijos Doces,
Pitanga.
Ariana { 27 de julho de 2008 19:58 }
Nossa que susto, achei que o texto fosse real!

Como se dizia Renato Russo!

"É tão estranho os bons morrem jovens!"

Belo texto!

Beijo
felipe { 28 de julho de 2008 08:38 }
Olá, tudo bem? que interessante. A gente escreveu coisas parecidas com a diferença de um ser real e outro ficticio.
Adoro sempre vir aqui.
Apareça mais no msn.
Grande abraço e boa semana.

Felipe

www.muitoadeclarar.zip.net
Latinha { 28 de julho de 2008 10:54 }
Uma coisa que me sempre me passa pela cabeça é porque temos que perder algo para poder "assumirmos" o quão importante ela era para nós.

Grande parte de nós é capaz de traduzir em lindas palavras um sentimento, uma amizade, um amor, mas em geral quando o perdemos.

Contudo, quando o tinhamos... por medo, vergonha, egoísmo (?) não somos capazes de nos expressar.

Meditar eu vou! ehehehe

Grande semana!