Por um verdadeiro Estado de direito...

Não, meus senhores, os mortos não voltam. (...) e é melhor que assim seja...Que vergonha se voltassem!(...) Eles vão, e a gente fica, e ri, e canta, e deseja, e continua a viver! Mutilados, amputados, às vezes do melhor de nós mesmos (...). É uma miséria, é, mas é assim!”

(Os Mortos não voltam. In: As mascaras do destino, Florbela Espanca)


Estou lendo agora um livro de prosa da muito conhecida e aclamada poetisa lusitana Florbela Espanca. Embora pouco conhecida, a prosa dessa autora é muito boa. Achei essa citação que uso como preâmbulo para o meu protesto.

É vergonhosa a situação em que vivemos no nosso país. É triste ver o quanto as pessoas morrem à toa, sem motivo algum. Nossa vida não está sendo mais valorizada, agora morrer assassinado parece tão natural quanto uma morte qualquer, por velhice ou porque o nosso tempo na terra simplesmente acabou. Onde está a dignidade da vida? Que país é esse?

Diz-se que num Estado de Direito de verdade, a dignidade humana é respeitada tanto pela lei, que é responsável pela organização e manutenção da ordem num Estado, quanto as pessoas sabem respeitar as outras entre si, é verdadeiramente o conceito acabado de civilidade.

Quando li esse trecho do conto, percebi que ele refletia exatamente a forma como ficamos depois da morte de alguém que é muito querido a nós. Eu sempre acreditei que as pessoas que passam pela nossa vida são parte da nossa comunidade interior, passam a ser uma parte de nós. Essa comunidade interior é formada pela nossa família e os nossos amigos, quando alguém morre, parte de nós que era ligada àquela pessoa também morre. E o que sobra? Sobram muitos semimortos, um pouco zumbis. Não, um pouco não, sobram zumbis.

Parece-me, em alguns momentos que nesse país os ofícios religiosos não deveriam ser outros senão os de réquiem e ainda seria pouco. Com o tanto de mortes que temos, passaríamos o resto da nossa vida murmurando o “Requiescat in Pace” *. Mas será que realmente os mortos vão descansar em paz? Os que continuam vivos certamente tem uma grande batalha a travar pedindo justiça pelos seus mortos.

“É uma miséria, é, mas é assim!” conclui Florbela Espanca. É uma miséria ver que a nossa vida está rifada nas mãos de pessoas que recebem um pseudotreinamento para, segundo dizem, proteger a população. Proteger ou matar? Infelizmente é uma miséria essa nossa vida. Mas não podemos fazer nada? Podemos e devemos.

Temos que fazer alguma coisa! Já é o segundo caso em poucos dias. Os cariocas devem, por primeiro e, depois, todo o resto do país em cada um dos seus estados exigir JUSTIÇA. Estamos sendo injustiçados quando somos tratados dessa forma, quando temos nossa família mutilada ou até arrasada, quando temos medo de sair nas ruas por causa da violência, quando vemos nossos filhos, netos, sobrinhos morrendo pouco depois de nascer na maternidade por falta de recursos e médicos. Infelizmente não temos e não vivemos num Estado de direito...

Não temos e não vivemos um Estado de direito e por quê? Porque num Estado de direito, os pais não matam os filhos, os ladrões não matam policiais, o exército não entrega jovens para traficantes matarem, a polícia não mata inocentes, bebês não morrem às centenas numa Santa Casa na capital de um estado do país...

Num Estado de direito viveríamos dignamente. Teríamos um justo salário, teríamos segurança, saúde, educação e cultura. Seriamos melhores, viveríamos melhor... Num Estado de direito seríamos tratados como cidadãos, seria verdade a Civitas** que tanto idealizamos para cada um de nós, mas que infelizmente ainda não existe nem aqui e nem em qualquer lugar do mundo mesmo aqueles do primeiro mundo. Porque não é uma constituição que garante cidadania a ninguém. Cidadania verdadeira está muito além disso...e nós também temos nossa parcela de culpa, falarei disso em outra oportunidade...

E a gente continua a viver. Viver?! E será que estamos vivendo ou pouco a pouco estamos morrendo?

Rrá!

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* Citação latina que significa: ‘Descanse em paz’.
** Conceito latino que significa uma plenitude de cidadania.

13 commenti:

Vinícius Aguiar { 16 de julho de 2008 18:22 }
Eu me atrevo a dividir a culpabilidade de todo esse triste contexto... e afirmo que não estamos apenas nas mãos dos estadistas... a própria cultura do nosso povo infelizmente nos leva a esse caos... a mudança tem que partir das cabeças das pessoas, das suas atitudes... cidadania não é apenas pagar impostos e exigir dos governos... cidadania é saber o seu real papel na sociedade, e saber que seus deveres vão além de pagar a conta de luz e não cometer crimes... enquanto tivermos esse senso de egocentrismo dentro de nós, não saberemos escolher nossos representantes, e consequentemente não poderemos viver num "estado de direito"... a culpa inicial parte de nós, e se volta contra nós!
Míope { 16 de julho de 2008 22:58 }
Hoje em dia a vida não vale 1 real.












Abç.
Marcinha { 17 de julho de 2008 10:15 }
a verdade é essa mesmo, e é triste saber que cidaddania, respeito e dignidade são palavras até conhecidas mas não vivenciadas por muita gente
Clecia { 17 de julho de 2008 20:27 }
Muito bom texto! A vida tem valido cada vez menos mesmo.Morre-se hoje a todo o momento e das maneiras mais estúpidas. Algumas poderiam até ser evitadas.E o pior de tudo isso é que há pessoas que já não se chocam mais com isso. E nós precisamos continuar nos indignando. Não podemos nos conformar e aceitar tudo como fatalidade.

Conheço a poesia de Florbela Espanca, mas da prosa não conhecia nada. Gostei de ler este fragmento. Um abraço!
felipe { 18 de julho de 2008 14:17 }
Nossa, vim para fazer um comentário, mas farei outro: Você lê Florbela Espanca??? parabéns.....isso sim é um blog de conteúdo.
Em relação ao seu comentário no meu blog acerca da inveja também concordo contigo...inveja é complicado e por isso quis trazer o assunto á baila.
Grande abraço
Felipe

www.muitoadeclarar.zip.net
PULCRO { 18 de julho de 2008 15:17 }
Nem si se a minha vida tem algum valor ainda. Triste isso.


http://www.pulchro.blogspot.com/
Janete Andrade { 18 de julho de 2008 15:35 }
infelizmente acho q estamos morrendo aos poucos, TODOS NÓS! ;$

=*
Raposa { 19 de julho de 2008 01:30 }
Estou passando por aqui com um pouco de receio por não ter tempo (ou melhor, saúde) pra ler e comentar sobre seu texto, mas só pelo trecho que li, acredito que devo pegar algum livro de Florbela logo^^

Passei mesmo pra dizer que finalmente fiz algo que por preguiça fui deixando de fazer, te adicionar na minha lista de blogs lidos (e no meu Feed tb^^)

Abraços!
Latinha { 19 de julho de 2008 16:24 }
Eu não sei... "meditar eu irei"... mas acho que isso é reflexo da nossa sociedade... se estamos morrendo hoje... é porque ao longo dos anos foram morrendo várias coisas que são importantes para a manutenção desse estado de Direito.

Muito legal o post... perfeito como sempre! ;-)

Abração!
Leonardo Werneck { 19 de julho de 2008 21:37 }
Rapaz, que texto hein?

Concordo com cada vírgula!

Abraços
Igor Lessa { 20 de julho de 2008 13:53 }
Belo texto, bela visão. O que não é belo é essa situação, né, meu amigo...

Uma das coisas que mais marcam essa nossa época, na minha opinião, é a banalização em si - da vida, do amor, das pessoas, da falta de ética...

Efim...

Grande abraço, belo texto!


Olhando Pra Grama - Crônicas de um ansioso
Vinícius Aguiar { 21 de julho de 2008 08:26 }
Oie... tem presente pra vc lá no blog! Passa lá!
Abç!
Gustavo Hermes Soares { 21 de julho de 2008 14:38 }
São fases da vida.
uma época não imagino o que publicar no blog. nem login eu faço.

mas em outras épocas fico cheeeeio de idéias.
e agora é uma delas. hehe
estou numa fase de muuuuuuita criatividade. heheuheuhe
me achei agora!

mas é sério. to com planos... e planos!

bom texto!!

abraço!