Suicida Pop-Star

"Não há nenhum momento na nossa vida em que
não poderiamos ter tomado um novo caminho."
(Charles de Foucauld)

Júlia parece que nasceu sobre o signo do azar. Teve uma vida familiar turbulenta. Sua mãe não a desejou, depois, foi o mundo que parecia a rejeitar. Seu pai precisou de muito esforço para que a filha não se tornasse uma garota depressiva, mas, acabou morrendo quando ela completava os 18 anos; ao menos consolado que ela havia passado a turbulência da adolescência.

Aos 22, Júlia arrumou um namorado e pensou que finalmente seria feliz. Puro engano! Em pleno altar foi abandonada pelo noivo que sumiu e nem sequer apareceu na Igreja da Sé. A noiva ficou anos arrasada pelo vexame, mas, enfim, foi tocando a vida. Sua vida porém, cada dia mais caminhava rumo à rotina, à melancolia, ela sentia como se patinasse e não como se crescesse, caminhasse; vivia todo dia a mesma coisa, mesma coisa, mesma coisa.

A vida de Júlia era extremamente sem graça, aliás, depois de ter sido abandonada no altar, Júlia se tornara uma moça absolutamente sem graça. Sua rotina diária resumia-se em trabalhar e voltar pra casa, ler um romance desses baratos de banca de jornal ou assistir um capítulo da novela da TV; ocasionalmente, um filmezinho na TV também mas, raramente, muito raramente. Júlia tornava sua vida já sem alegrias, algo cada dia mais sem sal.

Numa segunda-feira, oito anos depois que foi abandonada pelo noivo, tomou a resolução de mudar de vida. Pensava que se tornando uma celebridade, uma pop-star sua vida teria a tintura de felicidade que ela tanto ansiou desde que se entendia por gente e que compreendera o que significava a felicidade. Tentou carreira na TV, sem sucesso. Não tinha porte para ser modelo, nem atriz, nem apresentadora de TV, nem nada. Júlia parecia uma verdadeira Macabéa, mas, ao contrário da personagem lispectoriana, ela não só vivia, ela pensava também e como pensava, passava um longo tempo no metrô e no ônibus a pensar na vida e numa forma de sair daquele marasmo.

Júlia acordou dia seguinte decidida a tornar-se uma pop-star a qualquer custo. Tomou um banho demorado, se maquiou, se penteou e se vestiu de noiva. Depois, ao contrário do que habitualmente fazia, pegou o seu carro e, vestida de noiva, foi trabalhar.

Meio-Dia. O setor inteiro estava preocupado pois Júlia sempre fora uma funcionária exemplar e pontual. Não conseguiam contatá-la, porém, todos saíram pra almoçar afinal era hora do almoço. Na saída do elevador os colegas de Júlia viam um alvoroço que vinha de uma praça e olharam para o alto e viram uma noiva: era Júlia.

O populacho parou pra assistir a cena. Era um cutucando o ombro do outro, era gente empurrando, mulheres torcendo o pé, homens comentando sobre aquela morena que passava na rua: um pedaço de mal caminho, era a bagunça, a baderna, um carnaval; nem mesmo a pregação do Pastor Jesuel fazia mais público do que a noiva, suicída noiva.

Nesse interim, apareceu um câmera e um fotografo; era preciso filmar, gravar, fotografar. Não é todo dia que uma pessoa se veste de noiva pra se matar. O populacho agitado dizia:

- Não pula, vale a pena tentar outra vez, viver vale a pena!

O câmera gritava:

- Pula aí, dá uma reportagem de jornal; manchete de primeira página!

E Júlia que queria sair da rotina, ser famosa, estar nos jornais, na televisão, ser sensação nem tresvirgerou e jogou-se! Fim da linha.

Dia seguinte a morta era assunto de primeira página. De fato, por um dia, foi famosa, pop-star.

15 commenti:

Quase Trinta { 27 de agosto de 2008 19:06 }
Acredito q todos temos um pouco de Júlia em nossas vidas
Welker { 27 de agosto de 2008 22:07 }
Bonito. E pensar que as pessoas acham mesmo que só existe um caminho para a glória eterna.
Flor { 27 de agosto de 2008 22:22 }
que historia triste...
coitada...

ps. a peça não é só pras meninas, os homens tambem morrem de rir!

beijo
Flor { 27 de agosto de 2008 22:28 }
Luifel... achei a historia do post muito triste! coitada dessa guria...

ah... a peça nao é só pra meninas nao!!! os homens tb dao muita risada com ela!!!

beijoo
The Life of Guister { 27 de agosto de 2008 23:55 }
Luifel está para Foucauld assim como Guister está para Física Quântica!!! hahahahahaha

Já tinha gostado dele antes, agora então está muito melhor... Parabéns ^^ Abrá! ahhahahaha
Camila { 28 de agosto de 2008 09:05 }
"Não há nenhum momento na nossa vida em que
não poderiamos ter tomado um novo caminho."
É a mais pura verdade!
Srta Diazepan { 28 de agosto de 2008 21:18 }
eu acho q ela devia ter desistido... curtir a glória dos 15min de fama. *rs

beijo
Pedro { 28 de agosto de 2008 22:02 }
Pobre Júlia...
Camila { 29 de agosto de 2008 10:48 }
Bom dia Luifel!
Aqui... em relação ao comentário em meus Caminhos, num é o Lenine naum, é o LEONI.
Você deve conhecer musicas deles interpretadas por outros cantores, como:
Garotos - "Garotos como eu sempre tão espertos perto de uma mulher... são só garotos"

Os Outro - "Depois de você, os outros são os outros e só..."

Naum se sinta um E.T. Leoni não é tão conhecido assim... e na maior parte das vezes confundido com o Lenine!

Um ótimo final de semana e muito obrigada pela carinho para com meus Caminhos!

Beijo da Cah
Janete Andrade { 29 de agosto de 2008 13:44 }
bem tem muitas 'Júlias' no mundo de hoje... :\

pessoas fazem qualquer coisa em nome da fama! ;X

=*
Ariana { 30 de agosto de 2008 18:07 }
Credooo!
Nunca quis ser pop star!
Mto menos desse jeito!rsrs

Beijo
carla m. { 30 de agosto de 2008 19:25 }
pena que ela tenha visto tudo cinza... ou branco... monocolor...

podia ter sido tão colorida.
Aline { 31 de agosto de 2008 08:33 }
Pena que ela não desfrutou do sucesso, né? tisc tisc...

Bom conto.

Bjm
PULCRO { 31 de agosto de 2008 15:02 }
Não gosto da minha Júlia.
=/


http://pulchro.blogspot.com/
Latinha { 31 de agosto de 2008 17:02 }
Rapaz... pensei um bocado de coisas, várias coisas passaram na minha mente enquanto lia... mas não consegui "verbalizar" nenhuma...

Mas esse post dá pano para a manga ehehehe

adorei!