Loucura: justa medida da normalidade

"Os homens são tão necessáriamente loucos que seria louco,
de uma outra forma de loucura, não ser louco"

(Blaise Pascal, Pensées, nº 412)

Blaise Pascal é o meu filósofo favorito. Esta frase de Pascal sempre me chamou atenção, mas eu nunca entendi realmente o seu real significado. Talvez fosse algo que transcedesse a minha capacidade intelectual entender o que ele quis dizer com isso. Acreditava nisso até a semana passada.

Como estou no final do curso, a Universidade me permite liberdade para dar o direcionamento que quisermos dentro da nossa área. Eu escolhi fazer arqueologia e não estou arrependido. Arqueologia é realmente algo surreal! É fascinante cada aula que assisto, aprendo coisas fodásticas!

Deixando as digressões de lado, comecei a ler um texto de Lévi-Strauss. Esse texto de Strauss fala sobre o funcionamento da sociedades do ponto de vista da análise sociológica. Num certo momento, Strauss chega a afirmar que quem mantém o padrão de normalidade dentro de uma sociedade são aqueles a quem, essa mesma sociedade (como um todo), classifa e outorga o papel de LOUCOS e espera que eles desempenhem esse papel. Num outro ponto do texto, esse antropólogo ainda afirma que a sociedade, na verdade, é um grupo heterogêneo formado por vários outros subgrupos relativamente homogêneos na maneira de pensar, agir e interagir com o mundo e com os outros indivíduos.

Pus-me a pensar e concluí que, de fato, o que ele afirma é verdade. Nós não pensamos, enxergamos a vida ou agimos de formas semelhantes, mas de formas diferentes. É verdade, porém, que existem pessoas que interagem como o mundo de forma parecida. O mais interessante é constatar que, para todos os que fogem do nosso "padrão" de normalidade, conferimo-lhes a alcunha de LOUCOS e saimos filosofando sobre os 'N' motivos pelo qual desaprovamos a atitude daqueles que pensam ou reagem de forma diversa da nossa.

Diante de um panorama desses, fica mais fácil entender e compreender Pascal. E ele, de fato, estava certo mesmo!

No fim das contas, somos todos loucos. De fato, para nós humanos, ser ''normal'' seria loucura!

Rrá!

Uma carta que nunca remeterei

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma
outra razão para amar senão amar.
Que queres que te diga, além de que te amo,
se o que quero dizer-te é que te amo?"
(Fernando Pessoa)


É estranho pensar que estou assim. Não! Parece que tudo parou por causa de você, e de fato, parou mesmo. Passaram-se mais de 3 anos e eu acreditei que tudo isso já tinha sido superado, mas não foi. Feliz ou infelizmente, como diz Pascal, "o coração tem razões que a própria razão desconhece".

Você não é a mesma e e eu não sou mais o mesmo também. Estamos diferentes, afinal, por menos que pareça, 3 anos são muito tempo. Seria estranho confessar para alguém sobre isso. É doloroso pra mim confessar que ainda amo alguém que não pode me amar. Sua vida é totalmente diferente e você mora muito longe agora.

Sei que você está feliz, na última vez que conversamos a sua felicidade estava estampada na sua voz, linda e doce, que ainda mexe comigo profundamente. Essa carta nunca vai chegar nas suas mãos por um óbvio motivo: eu não vou remeter. Ainda sinto meu coração bater mais forte quando algum amigo que temos em comum me fala de você, que teve contato com você, sempre pergunto sobre você e você sabe o quanto você foi e é uma personagem importante na minha vida.

Você me ensinou o que era amar no sentido mais completo e verdadeiro da palavra e do sentimento. Conversar com você ao telefone era mágico. Tomar um sorvete, nos meus momentos de falta de dinheiro era perfeito. Você é uma moça surreal e linda, por dentro e por fora, por isso que eu me apaixonei por você.

Mas tudo passou! Não dá pra viver de gotas de momentos que não voltam mais. Tudo acabou por um motivo que acreditamos ter sido divino, um chamado para a sua vida, eu não poderia acompanhar. Meu chamado era outro, minha vida tinha que seguir por um rumo paralelo ao seu, mas não o mesmo, só um pouco parecido.

Hoje, pela manhã, 3 meses depois de ter falado com você pela última vez acreditado que tudo passou, descobri que eu vivi um engodo. Eu ainda a amo, como se todo esse tempo não tivesse passado e não vou parar nunca de te amar...

Em busca do que era seu...

"O que nos faz humanos é justamente [...] a liberdade de escolha."

(Pão para o Caminho, Henri Nouwen)


Era por volta das 15:00hs de uma sexta-feira.

Tinha acabado de tomar banho. Secou o corpo, depois passou um perfume. Vestiu um jeans, camiseta e uma jaqueta. Pegou seu MP3, a mochila e um livro. Abriu a porta e foi em busca do que era seu.

Saiu apressado, mas estava em paz. A vida inteira havia corrido em busca de coisas que não eram suas. Agora, mesmo apressado, corria atrás de algo que era seu, unicamente seu e de mais ninguém.

Saiu resolvido a não voltar sem ela, e não voltou mesmo. Foi atrás da sua felicidade, esse algo que lhe pertencia e que, agora, ele resolutamente saiu em busca. Saiu, porque a felicidade não estava mais ali, estava lá...

Merece castigo quem fala a verdade...

Quando eu era criança minha mãe quando nos advertia que não fizessemos algo errado e apontava os nossos erros dizia sempre: "Quem fala a verdade não merece castigo". Esse é um ditado que eu tenho gravado na minha mente como um dos ensinamentos mais verdadeiros da minha mãe.

Essa semana, acompanhando o jornal, acabei de ter certeza de que o ditado que a minha mãe falava estava bastante 'equivocado', o correto é "Quem fala a verdade merece castigo", mas vamos às explicações. Uma vereadora, candidata a prefeita aqui em Sampa, fez um discurso acusando os nossos nobres vereadores de certo tipo de fraude, enfim, [não quero aqui julgar o mérito da veracidade ou da falsidade da acusação], outro é, aqui, o motivo da discussão.

Certamente, nós paulistanos, não somos caiporas pra acreditar que a Câmara dos Vereadores é um orgão cujo todos os membros são pessoas incorruptiveis, imaculadas, honestíssimas. Não podemos dizer que todos os vereadores são corruptos, mas seria caiporice demais dizer que todos são santos.

Agora estão com processo para cassarem a tal vereadora que os acusou. Processo? Isso, processo de cassação. OK, a acusação pode ser falsa e a vereadora certamente não é uma santa, aliás, pode ser até mais corrupta do que eles, mas enfim, ela falou implicitamente uma verdade, aliás, confirmou o que já sabiamos. Se, de fato, é falsa a acusação que ela faz contra os vereadores, é verdade porém, que entre eles existem corruptos!

E no fim, sempre vence a mentira. Todo mundo finge que está tudo bem, elege-se uma nova Câmara e o circulo vicioso continua... E, nesse país, quem fala a verdade, mesmo que implicitamente, merece castigo sim: cassação!

E viva a mentira, a fraude, a roubalheira e a corrupção. Existe um bocado de trouxas que pagam os impostos pra sustentar tudo isso, não é verdade?

Rrá!

Ignorância e Alienação

Ontem a noite conversava com um amigo meu de longa data, quando ele começou a falar o quanto gostaria de que as coisas fossem diferentes, mas não as coisas, que ele gostaria de não ter conhecimento de muita coisa, que preferiria viver na ignorância da realidade. Acrescentei que, de fato, os ignorantes são felizes, segundo o ditado, e ficamos debatendo sobre isso.

Fico muitas vezes pensando sobre isso. Será mesmo que essa ignorância traz felicidade? Penso que qualquer ignorância não traz em si qualquer aspecto da felicidade, porém, ela tem uma enorme capacidade alienadora de permitir que o ignorante tenha os olhos e ouvidos tapados à realidade que o cerca, fazendo com que o mesmo viva sob um véu ilusório em que tudo é bom e agradável, pelo menos melhor do que é para nós que temos algum conhecimento e estamos acostumados a enxergar a realidade tal como ela é, com suas dores e alegrias.

Não sei se viver alienado da realidade é algo bom, mas, se esse lado existir, eu poderia dizer que o lado bom seria o de não ter contato com a parte dolorosa que o conhecimento da realidade nos traz e com a qual sofremos ou ao menos nos confrontamos.

O problema é que, por medo de sofrer, preferimos viver ou fingimos viver na ignorância da realidade porque assim é mais fácil não se defrontar com os sofrimentos que o conhecimento dessa mesma realidade nos traz.

Ainda mais, quando vivemos na pseudo-alienação, caimos no comodismo, pois quando sou "cego, surdo e mudo" e faço 'vista grossa' à parte dolorosa da nossa realidade, não luto por melhoras, fico naquilo mesmo, porque, afinal de contas, eu não sei de nada, então pra que descruzar os braços e fazer alguma coisa?

E assim vamos ficando. Fingimos não saber nada e também fingimos não sofrer e não ver o sofrimento dos outros.

Não sei se é bom ser alienado ou pseudo-alienado, mas que é comodo eu sei que é, muito comodo.

Tanta asneira, tanta invenção, tanta sandice...

“Como é que eu consegui fazer isso?” Aula do meu professor de Sabedoria Proverbial Chinesa lendo uma frase do seu segundo autor preferido, Kurt Vonnegut.

“Eu não seria capaz de fazer isto, mas respeito as pessoas que fazem, para elas é normal”. Conversa com o meu amigo bibliotecário no ônibus, mesmo dia, sobre ‘Incesto’.

A capacidade humana é algo surreal. Podemos um dia amar, no outro odiar e ainda no outro se reconciliar. Podemos construir uma casa, um palácio, uma cidade, mas acabar com o mundo! É incrível como coisas que foram escritas, feitas, ditas parecem, de hora pra outra, que não foram feitas por nós. Olhamos muitas coisas que fazemos e fizemos e dizemos realmente: Como é que eu consegui fazer isto?

Mais acertamos do que erramos? Ou erramos mais do que acertamos? Muitas vezes... [que mentira! É sempre], mudamos ao sabor dos ventos. Somos mutáveis porque somos livres. Liberdade! [Será que é isso mesmo?].

Antigamente éramos uma coisa, hoje não sabemos quem somos. [Isso sempre acontece!] Voltando na conversa que tive na sexta: “Antigamente as crianças compreendiam Monteiro Lobato...hoje se você der ‘Reinações de Narizinho’ para uma criança ler, ela não vai entender nada...”. Hoje posso e amanhã não posso mais, aliás, não consigo mais...andei pra trás? [Num sei, mas se eu não regredi, algumas pessoas, regrediram!] Como é que eu consegui fazer isto? E porque não consigo fazer isto agora? [Regressão, realmente? Não! Progressão Continuada]

Antes pensava diferente de hoje, hoje penso de uma forma, amanhã poderei pensar diferente. Sou capaz de fazer hoje, amanhã já posso não ser ou por convicção ou por incapacidade ou sei lá porque. Amanhã, me torno meu próprio Tomás de Torquemada, o grã-inquisidor espanhol de mim mesmo e me condeno: Como é que eu consegui fazer isto? Como é que eu pude fazer isto? Por que fiz isto?

Será que eu sei o que sou capaz de fazer? Do que realmente sou capaz? Por que a gente é assim?

Rrá!

[Post escrito em 23.04.07]