Utopias: ópio do povo?


Coincidentemente, pela manhã, peguei para ler o livro ‘Opressão e Liberdade’ da ativista social e filosofa francesa, Simone Weil. Ao chegar ao trabalho - lendo o jornal - vim a saber que hoje, celebra-se o centenário dessa filósofa.

Lembrei-me então de uma conversa que tive com uma amiga sobre a nossa concepção da visão esquerdista. É interessante pensar na capacidade que temos de defender com ‘unhas e dentes’ nossos ideais e de criticar e até, achincalhar, se for preciso, os outros e seus ideais.

Marxistas consideram alienados os direitistas. Ateus se avocam livres e ilustrados frente aos que creem, apoiando-se na frase de Hegel que diz que “a religião é o ópio do povo”. Simone Weil, num dos discursos de ‘Opressão e Liberdade’ afirma que “a ‘revolução’ é o ópio do povo”. Eu penso que, na verdade, as utopias é que são o ‘verdadeiro’ ópio do povo.

Todas as linhas de pensamento – sejam doutrinas ou não – estão permeadas das falhas humanas. Da mesma forma que já afirmei num post anterior [vide
Conspiração (ou busca) da Felicidade... ] esquecemos que erramos, que os outros também erram e que tudo é passível de falhas e vivemos de utopia. Defendemos de tal forma nossos ideais que consideramos os outros os reais alienados da história mas, no fundo, somos todos alienados porque vivemos de utopia.

O cristianismo, o budismo, o islamismo (doutrinas religiosas) bem como, o marxismo, o capitalismo, o anarquismo (doutrinas políticas) são permeadas de utopias que - de certa forma - tem uma confluência entre si mas, infelizmente, não somos capazes de enxergar isso e por isso entramos naquela eterna guerra de pensamentos que só se resolve a partir do princípio da ‘não discussão’ afinal de contas, como diz o senso comum: futebol, religião e política não se discutem.

A partir disso, concluir que somos todos alienados não é difícil. Inexistem verdadeiros ‘ilustrados’, porque a verdade é algo que possui várias vertentes. Aquilo que julgamos ser a ‘verdade’ absoluta, capaz de libertar o homem da ‘alienação’ é tão utópica e possui tantas alienações quanto a ‘verdade’ que outrem defende. No fundo sabemos disso, mas não queremos aceitar.

Temos sempre a utopia de ‘iluminar’ a mente de outrem a partir daquilo que consideramos como verdade absoluta, de que o mundo seria muito melhor se fosse vivido a partir daquilo que nós acreditamos ser o melhor para todos, que os homens viveriam melhor sem aquilo que o outro acredita.

Vendo isso, parece-me claro como o dia que, o verdadeiro ópio do povo são de fato, as utopias, porque elas são as únicas capazes de mover o homem numa direção sem fazê-lo desviar pra direita ou pra esquerda, as únicas que não permitem ver a essência positiva que existe no pensamento do outro, que não permitem que ao homem abrir nossa visão afim de ver aquilo que o outro vê, senão da forma que ele vê, mas buscando os pontos positivos naquilo que ele vê.

As utopias, também cabe dizer, são forças motrizes capazes de transformar um homem num grande altruísta ou num grande monstro e tem tal capacidade de fazê-lo, que o homem a ela submetido dá tudo, inclusive a própria vida.

Diante disso, é fácil concluir que, de fato, as utopias são o verdadeiro ópio do povo pois, alienam de tal forma e com tal força que é com grande esforço que um homem consegue se desvencilhar dela, tal dificuldade é comparável talvez ao processo de desintoxicação de um viciado em narcóticos.

Bom, é mais ou menos isso! AbRrá!

Na imagem: a filosofa e ativista social francesa, Simone Weil, cujo centenário do nascimento se celebra hoje.

9 commenti:

Welker { 4 de fevereiro de 2009 10:07 }
Um povo sem utopias se iguala a uma criança sem coelho da páscoa, papai noel e fada dos dentes.

Tais ilusões funcionam como um meio de reprimir a criança e fazê-la com que se prepare para o futuro, adquirindo valores que, há muito tempo, são passados usando desses seres imaginários. Com as utopias, deve ser a mesma coisa.
FOXX { 4 de fevereiro de 2009 12:46 }
ai ai
meu pai só sabe falar disso...
não é a toa q ele colocou o meu nome de um dos líderes do comunismo russo
hehe
The Owl { 4 de fevereiro de 2009 13:23 }
Acho que como é impossível conhecer a verdade absoluta, cada um escolhe a utopia em que quer acreditar.
Creio que o problema está em não se ter a consciência de que aquela filosofia de vida que se escolheu é tão utópica quanto qualquer outra, e é quando perdemos essa consciência que começamos a querer doutrinar os outros.
Camila { 4 de fevereiro de 2009 15:35 }
Nossa que texto, você escreve muito, mas muito e verdadeiramente bem.
Eu entendi tudinho, porem ainda não cheguei a uma conclusão.
Sabe, é q no fundo eu sei que gosto de utopias...

Beijos meu bem!

Ps. Ve se aparece no msn! Saudade!
Quase Trinta { 4 de fevereiro de 2009 20:01 }
Caraca, que assunto complexo, e mesmo assim vc o torna interessante.
Utopias, acho q nesse mundo cada um cria suas próprias....
PULCRO { 7 de fevereiro de 2009 06:51 }
Vixi! Desculpa ai amigo. mas acho que um comentario foi sem querer aqui.
comentario para outro blog.



Voltando ao teu assunto... nunca ouvi falar dessa mulher. Estou sabendo agora atraves daqui.
interessante. Mais uma mulher na luta.
Latinha { 7 de fevereiro de 2009 15:15 }
Olá meu amigo!

Então, que besteira nada... concordo com você! Mais que um encontro de almas, um relacionamento deve ser duas pessoas que escolhem caminhar juntas e nesse caminho uma ajuda a outra.

Infelizmente, quase sempre caimos em armadilhas criados por nós mesmos, baixa auto-estima, inseguranças, ... e acabamos dando mais poderes ao outro do que ele realmente tem.

Mas é assim que o mundo gira não?! O negócio é se vamos aprender "rápido" ou vamos ficar de segunda época ;-)

Grande final de semana para você!
Thyago David. { 7 de fevereiro de 2009 15:50 }
eu defendo as minhas,
unhas e dentes. kkk

Abraço.
Filipe Garcia { 8 de fevereiro de 2009 10:03 }
Oi Luifel,

gosto de vir aqui porque sempre aprendo coisas novas. Você sempre coloca em pauta assuntos interessantes, de cunho filosófico.

Sabe, mais do que utopia, eu acredito que o ópio do povo vem da falta de flexibilização - e talvez seja uma linha tênue entre minha idéia e a sua. As pessoas, cabeça-duras, que são, prezam a todo custo suas idéias. Não acho isso errado. Mas concordo com você que não é certo isso de impor ao outro a minha crença. Antes de tudo, o respeito. Não é?

Um abraço, meu caro. E desculpa pelo sumiço. Meus dias estão corridos por aqui.